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No curso Ler o Mundo nós trazemos a teoria sobre a abordagem de alfabetização em que acreditamos, de maneira bem direta e articulada às atividades práticas. Este post é comprido, mas serve para quem quer se aprofundar mais no assunto e entender de onde vem a nossa concepção teórica de alfabetização. O texto foi adaptado do meu livro:

Práticas de Linguagem oral e escrita na Educação Infantil – PNBE do professor 2013 – Bruna Cardoso – Editora Anzol (Grupo SM); p. 32-38.

A LINGUAGEM ESCRITA

A linguagem escrita sempre teve seu lugar de destaque nas práticas escolares. A maioria dos educadores considera seu ensino muito importante. Geralmente as divergências que se manifestam a esse respeito relacionam-se ao momento (quando) e à maneira (como) de dar início a esse ensino.

Comecemos por como. Nos últimos anos, inúmeras discussões sobre o processo de alfabetização vêm se realizando e, sob a perspectiva da psicogênese da língua escrita desenvolvida pela psicóloga e educadora Emilia Ferreiro, com base na teoria construtivista da aprendizagem, houve a reformulação do olhar sobre a criança. A criança, que na concepção tradicional e condutista é vista como um receptáculo de estímulos que reage imitando e seguindo reforços positivos, passa a ser compreendida como agente do processo de aprendizagem, capaz de construir seu conhecimento por meio da interação com as pessoas, com os objetos e com o meio em que vive. A própria Emilia Ferreira afirma:

“No lugar de uma criança que recebe pouco a pouco uma linguagem inteiramente fabricada por outros, aparece uma criança que reconstrói por si mesma a linguagem, tomando seletivamente a informação que lhe provê o meio”[1].

Nessa nova perspectiva, Ferreiro e posteriormente outros pesquisadores, como Ana Teberosky, puderam analisar e compreender o processo de construção do sistema de escrita realizado pelas crianças.

Os estudos mostram que elas levantam hipóteses, questionam e reformulam-nas até conseguirem compreender o sistema alfabético. Ao fazer isso, levam em consideração nomes, letras e palavras que conhecem, relacionando o saber que possuem com o que acontece à sua volta e conceitualizando suas hipóteses sobre o nosso sistema alfabético de escrita.

Assim, é possível dizer, ainda, que há uma mudança na forma de ver as relações de ensino e aprendizagem. Em vez de “como ensinar”, é preciso compreender “o que o sujeito aprende”.

Pensar a criança como agente e construtora do seu conhecimento é, grosso modo, o que diferencia a psicogênese da língua escrita de outras concepções de alfabetização. No entanto, há também outro aspecto enfatizado pelos autores que defendem essa concepção de ensino da língua escrita: eles veem a alfabetização de maneira mais ampla, não a considerando apenas como o processo de construção do sistema de escrita. Alfabetizar é também entrar em contato com os diferentes gêneros textuais, compreendendo suas funções e seus usos. Isso significa, por exemplo, que a criança irá desde cedo, por meio da ajuda de um adulto, ouvir a leitura de contos e perceber que pode ler por prazer e ter hábito de leitura, que irá seguir uma receita escrita para fazer um bolo ou que irá ler um texto de uma enciclopédia para obter informações científicas que está pesquisando. A educadora Telma Weisz ressalta que:

“A redução do processo de alfabetização à simples memorização de um conjunto de correspondências grafofônicas reduz também a aprendizagem do sistema de escrita à mera aprendizagem de um código. Contra todo o conhecimento acumulado pela linguística nas últimas décadas, reduz-se a língua a pura fonologia – ignorando-se o fato de que, tratando a escrita como pura transcrição da fala, o que se obtém é uma linha direta para o analfabetismo funcional, ou seja, para a formação de gente capaz de oralizar textos sem compreendê-los. Pois o mundo da cultura escrita, no qual cabe à escola introduzir todos os seus alunos, é um mundo intertextual que se organiza em gêneros com linguagem própria, muito diferente da linguagem que se usa para falar”[2].

Partindo dessa concepção mais ampla sobre a alfabetização, a leitura e a escrita de diferentes textos, em seus mais diversos contextos e utilidades, são práticas incorporadas ao cotidiano escolar. Tanto a leitura quanto a produção escrita realizadas pelos alunos em sala de aula tornam-se objeto de ensino, antes mesmo de a criança ter formalmente construído o sistema de escrita.

Agora, iniciemos a discussão sobre quando ensinar a linguagem escrita.

Pasquier e Dolz,  em seu artigo “Um decálogo para ensinar a escrever”, propõem opções de ensino e aprendizagem da linguagem escrita. Desse decálogo, interessa-nos ressaltar um ponto, que diz respeito ao momento de se começar a ensinar a leitura e a escrita, denominado pelos autores de aprendizagem precoce.

O trecho a seguir do artigo de Pasquier e Dolz resume nossa posição de que, respeitando-se as características e as possibilidades de cada faixa etária (o que não significa exigir que as crianças pequenas façam o mesmo que os alunos mais velhos), é possível trabalhar a linguagem escrita com os alunos menores:

“Desde muito cedo, graças ao desenho, ao contato frequente com os livros, à utilização de imagens e, sobretudo, à técnica do “professor como escriba” (a criança diz oralmente um texto “escrito”, ditando-o a um adulto que assume a tarefa gráfica), crianças pequenas podem produzir textos descrevendo um lugar conhecido, explicando um fenômeno conhecido, contando uma história, tentando convencer um colega, dando instruções para fabricar um brinquedo etc. Escrevendo esses textos, as crianças pequenas adquirem progressivamente a necessidade de se adaptarem às situações de comunicação (para quem estão escrevendo e por quê) e à necessidade de terem em conta que querem ser compreendidas; qual é o seu papel ao escreverem; com que finalidade estão escrevendo e o que devem fazer para conseguir seus objetivos. […] Assim, vemos que, desde a pré-escola, pode haver múltiplas atividades de contato com diversos tipos de livros e de pequenos textos, que constituirão os primeiros passos em uma prática que se fará mais complexa a cada ano”[3].

A pedagoga Emilia Ferreiro também enfatiza a importância de se pensar na alfabetização desde cedo, dedicando ao tema o capítulo “A atenção à população de 4 a 6 anos em relação à alfabetização”, de seu livro Com todas as letras. Logo no início do texto, a autora responde, de maneira categórica, à famosa pergunta “Deve-se ensinar a ler e a escrever na pré-escola ou não?”: “Não se deve ensinar, porém deve-se permitir que a criança aprenda[4]. E o que Emilia Ferreiro quer dizer com isso?

Isso quer dizer que se deve deixar o objeto de conhecimento presente no dia a dia das crianças para que elas possam elaborar os conhecimentos sobre ele. A aprendizagem acontecerá quando o aluno observar a professora ler e escrever. Assim, pode-se explorar a diversidade textual e a diferença entre desenho e escrita, por exemplo. Esse tipo de trabalho traz muitos ganhos para a criança no momento em que ela ingressa no Ensino Fundamental.

Ao discutir a questão da introdução da alfabetização nas classes de crianças de Educação Infantil, Ferreiro se contrapõe às teorias que consideram que a criança precisa ter condições de “maturidade” para aprender a ler e a escrever e que utilizam exercícios de “prontidão” para a aprendizagem, argumentando:

  • Se a questão da maturidade fosse biológica, não haveria adultos analfabetos;
  • Os exercícios de “prontidão” ensinam o controle motor e a discriminação visual (aberto/fechado, acima/abaixo, direita/esquerda) e auditiva, e, assim, não contribuem para a compreensão do sistema alfabético de escrita e do caráter de representação da linguagem[5].

Para dar suporte a suas críticas, a autora apresenta os dados de uma pesquisa feita inicialmente com 959 crianças, escolhidas ao acaso, acompanhadas regularmente ao longo do primeiro ano escolar em zonas determinadas (escolas públicas de três cidades do México), sendo que essas escolas já apresentavam durante cinco anos consecutivos um fracasso escolar acima da média estadual ou nacional.

Os dados foram analisados em função de produções escritas feitas pelas crianças em entrevistas. A solicitação era que escrevessem algumas palavras e uma frase que não faziam parte do repertório tradicional do início da escolaridade, como, bola, bolo, casa. Dessa maneira foi possível observar como as crianças escrevem, analisar os dados levando em consideração a linearidade, a orientação, a ausência total de pseudoletras, a ausência total de números, a escrita em sistema alfabético e a escrita com utilização dos valores sonoros convencionais das letras. A conclusão foi que aprender os aspectos gráficos “externos” em relação ao sistema de escrita é fácil, o que confirma os argumentos da autora sobre os exercícios de “prontidão”.

No entanto Emilia Ferreiro afirma que a dificuldade da criança “é compreender […] o que a escrita representa e como [ela] a representa”[6].  E enfatiza a necessidade de se redefinirem os objetivos da alfabetização, tanto na Educação Infantil quanto no início do Ensino Fundamental.

Para tanto, a autora utiliza os exemplos de experiências de alfabetização consideradas alternativas, em trabalhos de pesquisa que foram realizadas desde 1974 e relatadas em diversas obras[7].  Apesar de variarem, essas experiências trazem em comum objetivos e propostas que, ainda hoje, podem, e devem, servir como reflexão.

A seguir, temos um esquema dessas ideias, que devem permear o processo de alfabetização[8]:

·    É preciso dar função à leitura e à escrita para que a criança compreenda as suas utilidades.
·    É preciso olhar para a escrita que a criança produz ou para o que ela tenta ler, e reconhecer o valor e a evolução dessa produção, bem como a riqueza que representa a heterogeneidade das conceitualizações que surgem no grupo.
·    É preciso ler para os alunos, escrever com eles e diante deles, deixar que eles explorem livros e diferentes textos.
·    Ao partir do próprio nome e do nome dos colegas, as crianças começam a construir seu repertório de informações sobre nosso sistema de escrita, por meio de comparações, memória análise, conflito…
·    A alfabetização precisa ser compreendida como processo. Cada criança passa por isso de maneira diferente e no seu próprio tempo. Na maioria das vezes, isso se inicia antes da escola e termina por completo depois do Ensino Fundamental.
·    Não é necessário corrigir o tempo todo os erros cometidos no início do processo. Isso pode inibir, além de não gerar reflexão. Os erros, inclusive, precisam ser compreendidos e interpretados pelo professor para que possam desafiar o aluno e ajudá-lo a avançar.

Crianças pequenas, de 4 e 5 anos, que têm a oportunidade de entrar em contato com o mundo da leitura e da escrita de maneira interessante, sem serem forçadas a aprender a ler e a escrever, têm condições de iniciar de maneira vantajosa o Ensino Fundamental. Nas palavras da própria Emilia Ferreiro:

“A alfabetização passa a ser uma tarefa interessante, que dá lugar a muita reflexão e a muita discussão em grupo. A língua escrita se converte num objeto de ação, e não de contemplação. É possível aproximar-se dela sem medo, porque se pode agir sobre ela, transformá-la e recriá-la. É precisamente a transformação e a recriação que permitem uma real apropriação”[9].

 

O texto acima foi adaptado do meu livro:

Práticas de Linguagem oral e escrita na Educação Infantil – PNBE do professor 2013 – Bruna Cardoso – Editora Anzol (Grupo SM).

Este texto é propriedade da autora (Bruna Cardoso) e da Editora SM, qualquer tipo de reprodução é proibida.

[1] FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985. p. 22.

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[2] WEISZ, Telma. Didática da leitura e da escrita: questões polêmicas. PátioRevista Pedagógica, Porto Alegre, Artmed, n. 28, nov.-dez., 2003.

[3] PASQUIER, A.; DOLZ, J. Un decálogo para enseñar a escribir. Tradução de Roxane Helena Rodrigues Rojo. (Circulação restrita). Cultura y Educación, Madri, n. 2, 1996, p. 31-41.

[4] FERREIRO, Emilia. Com todas as letras. Tradução de Maria Zilda da Cunha Lopes; retradução e cotejo de textos de Sandra Trabucco Valenzuela. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2007. p. 38.

[5] Idem, p. 39-40.

[6] Idem, p. 43.
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[7] FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985; FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1985 (20. ed., 1992); Alfabetização em processo. 8. ed. São Paulo: Cortez Editora, 1992; FERREIRO, Emília (Org.). Os filhos do analfabetismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
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[8] FERREIRO, Emilia. Com todas as letras, cit., p. 44-47.

[9] Idem, p. 47.

Posted by:brunapacardoso

Pedagoga formada pela USP, psicopedagoga pelo Instituto Sedes Sapientiae e especialista em alfabetização pelo ISE Vera Cruz. Autora do livro “Práticas de linguagem oral e escrita na Educação Infantil” - aprovado pelo PNBE do professor 2013. Trabalhou durante 12 anos em escola como professora e coordenadora pedagógica e hoje está à frente do Ler o Mundo, plataforma com curso para mães, pais e educadores.

2 respostas para ‘Nossa concepção teórica de alfabetização

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