Os livros que a gente lê, os filmes que assiste, as histórias que ouve e até as mensagens que recebe por aí contribuem bastante para construir nossas referências a respeito dos assuntos. Outro dia, li uma reportagem sobre algo que estava acontecendo numa colônia de Manitoba, na Bolívia. Eu nunca tinha ouvido falar dessa comunidade e tudo o que sei sobre ela é o que li no jornal. O que tinha acontecido lá é realmente horrível – uma série de estupros numa história tão elaborada que mais parece um filme de terror. A imagem que criei dessa comunidade (que é daquelas que vivem como se fosse em outra época) foi a pior possível. Mas foi construída por apenas uma história. Com certeza, Manitoba não tem somente histórias de estupro e não merece ser lembrada como um filme de terror – preciso pesquisar mais sobre eles.

Fiquei pensando na maneira como a história dos lugares e dos povos é construída por nós ao longo do tempo.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie fez um discurso, certa vez, contando exatamente isso – o perigo de uma única história. Ela disse que sempre gostou muito de ler e quando começou a escrever, ainda bem pequena, seus personagens eram brancos, tinham olhos azuis e viviam na neve. Algo inusitado, já que é negra, tem olhos castanhos, nasceu e nunca havia saído da Nigéria (um país super quente). Seus personagens comiam frutas que ela não conhecia, falavam sobre assuntos que não faziam parte de sua vida. Esse era o repertório que ela tinha construído sobre a literatura.

Depois, quando começou a ler as poucas histórias escritas por africanos que encontrava, tudo mudou. Ela percebeu que fazia muito mais sentido escrever sobre algo que conhecia – “livros africanos me salvaram de ter uma única história.” Assim, seguiu criando histórias que representam suas ideias, seu povo, sua educação, suas convicções – ajudando também o mundo nessa descoberta.

Por muito tempo, a história dos negros no Brasil foi contada principalmente por uma única voz: a do branco. Acontece que nós não queremos que estereótipos façam com que a história se torne uma única história (como disse Chimamanda). Por isso, aqui no Ler o Mundo, estamos sempre abertas a ouvir as diferentes vozes e trazemos – (durante o ano todo, mas esta semana especialmente) a representatividade negra na literatura, convidando vocês a reconstruir essa história com a gente.

Posted by:paulastrano

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