Pensando nas novas abordagens para a educação que vem sendo discutidas, li um livro bem interessante, que traz reflexões e propostas para as mudanças que precisam ocorrer no modelo tradicional de ensino. 

O livro se chama O Foco Triplo: uma nova abordagem para a educação e foi escrito por:

Daniel Goleman, ph. D., psicólogo formado em Harvard e autor do best-seller Inteligência Emocional.

Peter Senge, ph. D., professor no MIT e autor de A quinta disciplina: Arte e prática da organização que aprende.

A produção teórica desses autores, principalmente a de Senge, é muito mais utilizada nas organizações e empresas do que nas escolas, mas as reflexões deste livro são feitas em cima de experiências feitas em escolas e trazem a importância de se desenvolver o foco triplo desde cedo, partindo da premissa que as crianças estão crescendo em um mundo muito diferente. As três vertentes do foco são:

  • foco interno (conexão com o seu propósito, compreensão dos sentimentos e reflexão sobre isso);
  • empatia (olhar para o outro, sintonia com as outras pessoas, leva à capacidade de se relacionar bem);
  • foco externo (compreensão do mundo e da forma de interação e interdependência dos sistemas em várias instâncias).

Vivemos inúmeras mudanças em relação à tecnologia, é fato, mas os desafios não se restringem a isso. É preciso entender o que está acontecendo com o mundo levando em consideração as relações entre as pessoas e das pessoas com o planeta. 

Goleman inicia o livro contando sobre o programa educacional que será o seu norte durante o livro inteiro.  O programa educacional se chama “Aprendizagem Social e Emocional” (ASE) e foi implementado pelo psicólogo de Yale, Roger Weissberg, na cidade de New Haven, Connecticut, um local com muita pobreza e dificuldade de vida. O programa foi trazido pelo prefeito na época como uma força tarefa e hoje em dia a ASE se espalhou pelo mundo. Existem, inclusive, estudos comparando escolas que possuem o programa com escolas que não possuem que mostram, efeitos positivos da ASE, como:

– melhor comportamento na sala de aula, mais presença e gosto pela escola;

– diminuição da violência e do bullying;

– aumento das notas nos testes acadêmicos.

As competências emocionais e sociais centrais trabalhadas na ASE são:

  • autoconsciência;
  • autogestão;
  • empatia;
  • habilidade social;
  • boa capacidade de tomar decisão.

Partindo para o foco interno, Goleman fala sobre alfabetização emocional, tratando o assunto com a seriedade de um conteúdo que precisa ser aprendido na infância:

Nomear as emoções com precisão ajuda as crianças a ter mais clareza acerca do que está acontecendo em seu íntimo – fator essencial tanto para tomar decisões lúcidas como para administrar as emoções ao longo da vida. Deixar de compreender isso pode fazer a criança perder o rumo.” (p.23/24)

O autor faz um paralelo entre os interesses pessoais e a aprendizagem, mostrando o quanto a sintonia entre os dois pontos pode alavancar a motivação e o envolvimento dos alunos. E expandindo o foco interno para a vida, a ideia é que as pessoas consigam buscar uma conexão entre os seus valores éticos e o seu propósito.

Ainda sobre a aprendizagem, Goleman traça outro paralelo: só conseguimos nos manter atentos quando estamos calmos e focados. A capacidade de concentração e, consequentemente, o bom desempenho dos alunos em sala de aula, são, portanto, reflexo de uma boa aprendizagem emocional. 

A conclusão do tópico traz a seguinte reflexão: conseguir escolher onde vai a nossa atenção e manter o foco com determinação, sabendo perseguir os objetivos mesmo diante das dificuldades é um grande desafio. Para isso, é necessário ter controle cognitivo (capacidade de dizer não a alguma coisa/situação ou controlar um impulso, tendo em vista os benefícios dessa decisão), uma habilidade importantíssima de ser reforçada e trabalhada no desenvolvimento infantil e que traz muitos benefícios a longo prazo, tais como resiliência no aprendizado e na vida, como mostram estudos relatados no livro. 

“As crianças devem aprender a prestar atenção à própria atenção” (p.37)

empatia é o segundo foco trazido por Goleman, é o foco nas outras pessoas. É preciso entender o outro, como ele pensa e sente, e desenvolver habilidades sociais como cooperação.  O adulto que possui estas competências é aquele que sabe trabalhar em equipe e sabe ser um bom líder. No entanto, isso não acontece de uma hora para outra: é preciso desenvolver estas habilidades nas crianças.

E não basta entender os outros, é preciso ter compaixão e carinho por eles e querer ajudar. Enfim, tudo isso pode ser ensinado na forma de ação. 

Sendo assim, o melhor jeito de desenvolver a empatia é criar um ambiente permeado pelo apoio, a conexão, a preocupação com o outro e o carinho. Em uma sala de aula em que as relações entre o professor e o aluno se estabelecem dessa maneira, por exemplo, acontece a aprendizagem pelo modelo, além da melhora do desempenho cognitivo das crianças, fruto da compreensão e segurança que vem deste tipo de relação.

“Quando sua base é segura, a mente opera no máximo da capacidade. A pessoa funciona de forma ideal. Pode assumir riscos inteligentes. Pode inovar e ser criativa, sentir entusiasmo, motivação, entrar em sintonia com os demais. A compaixão chega mais facilmente.” (p. 46/47)

Consideramos que a empatia e o foco interno são extremamente importantes de serem trabalhados, tanto pelas escolas, quanto pelas família, entretanto, escolhi me ater à ultima parte do livro, que fala sobre a inteligência sistêmica, pois irei fazer um paralelo entre esta capacidade e a abordagem sobre alfabetização em que acreditamos.

Já escrevemos um post descrevendo a abordagem que seguimos: a psicogênese da linguagem escrita, de Emília Ferreiro. Agora, irei retomar o assunto, indo mais a fundo no processo de aquisição da escrita e explicando a maneira como ele é encaminhado no processo de ensino e aprendizagem.  

De acordo com as pesquisas de Emília Ferreiro, as crianças são capazes de pensar sobre o sistema de escrita e de levantar hipóteses sobre ele desde muito pequenas. 

Em grande parte das vezes, as hipóteses das crianças possuem uma regularidade e podem ser categorizadas: em um primeiro momento, usam letras aleatórias; depois, passam a corresponder a fala com a escrita usando uma letra para cada sílaba, sendo que esta correspondência, no começo, não necessariamente é com valor sonoro (com uma letra que faz parte da sílaba); em seguida, passam a acrescentar letras às silabas, oscilando a utilização de uma letra por sílaba e a de duas, para, ao final, chegarem à escrita alfabética. No início, a escrita alfabética pode ainda não conter sílabas mais complexas, como os encontros consonantais e as nasalizações, mas, aos poucos, essas peculiaridades vão sendo percebidas e introduzidas às produções. 

Obviamente, as crianças não levantam suas hipóteses sem embasamento. Elas o fazem quando têm repertório e a oportunidade de refletir sobre o objeto de conhecimento, que, neste caso, é o sistema de escrita.

Peter Senge, traz o conceito de inteligência sistêmica, que é o foco externo, a compreensão do mundo e da forma de interação e interdependência dos sistemas em várias instâncias. 

O pensamento sistêmico é inato à espécie humana e foi graças a ele que evoluímos: “Aprender a caçar significava aprender a interpretar os inúmeros sinais da floresta. Aprender a cultivar o alimento significava aprender meios de manusear o solo e a água.”(p.63).  No entanto, para não atrofiar, a inteligência sistêmica precisa ser cultivada e desenvolvida nas escolas: “Ela está aparentemente presente desde a idade mais tenra e, se estimulada, pode evoluir em escopo e profundidade surpreendentes em alunos mais velhos. Mas a chave desse progresso está em ferramentas de desenvolvimento apropriadas que permitam aos alunos articular e desenvolver sua inteligência sistêmica-“(p. 81)

Acreditamos que, tratando da aquisição do sistema de escrita e da importância que isso tem na vida de qualquer pessoa, dar chance à criança de viver o processo como descrevemos acima, considerando o seu pensamento, dando a ela oportunidade de pensar sobre o sistema de escrita e refletir sobre o seu funcionamento, em alguns momentos sozinha e em outros junto com os colegas, ao invés de receber um conhecimento pronto a ser memorizado (como fazer as crianças decorarem sílabas ou repetirem sons) é uma maneira riquíssima de dar espaço para o desenvolvimento da inteligência sistêmica. 

Passar por uma aprendizagem desta complexidade tendo a chance de levantar, testar hipóteses e revê-las, mudando de perspectiva, para, ao final,  compreender como se estrutura o sistema de escrita é um processo lindo, que toda criança merece viver.

Publicado por:brunapacardoso

Pedagoga formada pela USP, psicopedagoga pelo Instituto Sedes Sapientiae e especialista em alfabetização pelo ISE Vera Cruz. Autora do livro “Práticas de linguagem oral e escrita na Educação Infantil” - aprovado pelo PNBE do professor 2013. Trabalhou durante 12 anos em escola como professora e coordenadora pedagógica e hoje está à frente do Ler o Mundo, plataforma com curso para mães, pais e educadores.

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